Vinicius Costa M.

Foto: Ana Paula Oliveira de Santana

Bio

Poeta em tempo integral. Pedagogo e empregado público nas horas vagas. Casado com Ana Paula e melhor amigo do Snoop. Natural de Ribeira do Pombal, Bahia e adotado por Banzaê. Morador do Povoado Novo Segredo. Estudioso da língua e cultura local. Amante das borboletas. Deus conosco sempre.

Produção Literária

Os últimos galinhotossauros

Antes da Era dos Motoboissauros outra raça reinava soberana pelas ruas de Ribeira do Pombal, principalmente em dias de feira: Eram os Galinhotossauros, uma espécie peculiar de grande valor e coragem. Durante muito tempo “ditaram” incontestes as regras de transportes e entregas pombalenses.

No início dos tempos, pela pequena extensão da cidade que ainda crescia (como ainda hoje cresce) e poucas alternativas de transportes, um dos recursos usados pelas donas de casas para levar suas compras eram os serviços dos homens das galinhotas (o chamado carrinho de mão).

O sistema era simples: a dona fazia sua compra na feira (jaca, feijão de corda, laranja, melancia, coco, carne, licurí, castanha de caju, abacaxi…) tudo do mais pesado e imprescindível para toda semana e solicitava que “o Galinhota” levasse em sua residência suas “comprinhas” em troca de um real, ou, cinquenta centavos, dependendo do trajeto que variava entre cinco a quinze quilômetros; chovendo ou fazendo sol, subida ou descida, rua boa ou rua esburacada, pesado, extremamente pesado ou impossível para limites humanos, enfim, essas outras variáveis não alterava o valor pago já estabelecido pelo I.I.M. (Índice Inquestionável Municipal).

Atualmente com a proliferação dos Motoboissauros, aos poucos os Galinhotossauros estão sumindo, restando poucos que ainda resistem contra seleção natural da cadeia alimentar de conveniências comerciais. Mas, há quem diga que com o aquecimento global e elevados preços cobrados pelos Motoboissauros, a antiga raça possa surgir das cinzas e tomar de volta sua importância e utilidade pública.

“- Lógico que com reajuste do Índice Inquestionável Municipal e sensibilidade no que tange as variáveis e subjetividades das mesmas. Estamos analisando os possíveis procedimentos que tomaremos.” Afirma o presidente da A.G.Q.E.R.P (Associação dos Galinhotossauros Quase Extintos de Ribeira do Pombal), José Sereno da Lua.

Vicentino e o livro de São Cipriano

Dizem os mais velhos que dentre os livros que já foram escritos em todo o mundo e durante toda a história, pouco deles merecem destaque como o famoso livro de São Cipriano, o famoso livro da capa de prata.

Aparentemente o utensílio literário é comum e igual a qualquer outro. Repleto de orações e textos religiosos, de cunho fervoroso e divino. Nada de mais. Porém, conta a mesma lenda que se o livro for lido de trás para frente, o audacioso leitor obterá esplêndidos poderes. Como por exemplo, ficar invisível, falar com, ou transforma-se em animal, tornar-se um extraordinário caçador, entre outros dotes.

Tal ação requer muita coragem do curioso, pois, acreditam ainda que quem ousar ler o livro de maneira contrária, estará também vendendo sua alma ao diabo em compensação aos poderes que possuirá. Muitos por aqui dizem que já conheceu alguém que leu e já presenciou alguns feitos de algumas pessoas que ousaram ler o livro de São Cipriano de trás para frente.

Um dos personagens mais conhecido era Vicentino. Comentam que ele tinha uma rixa com um delegado e que toda vez que era preso conseguia fugir ou aparecia dentro da delegacia com caças, do tipo: patos, preiás, caborés etc. E, quando interrogado como ele conseguia aparecer com aquelas coisas, estando aprisionado, ele respondia que tinha ido dá uma voltinha. O engraçado é que ele dividia as caças com os policiais dorminhocos, que logo desistiram de prendê-lo, visto que, não tinha jeito, já que ele sempre fugia. Alguns acreditam que ele se transformava em formiga, rato ou barata para poder fugir do cárcere.

Dizem que Vicentino ainda anda por ai, caçando, libertando animais silvestres das jaulas e vendo as mulheres se banharem. Não esqueçam que ele também pode ficar invisível. Que Deus tenha piedade de sua alma.

Simplicidade e grandeza

Algumas situações ainda resistem bravamente em cidades interioranas como Banzaê. Resistem, pois, no restante do país e do mundo jazem esquecidas e aqui ainda permanecem. Questões aparentemente sem valor e ínfimas diante da simplicidade e pureza dos gestos. Virtudes que muitas vezes são confundidas com ingenuidade e apatia, mas, que revelam a grandeza e força de um povo. Povo este formado por brancos, índios, negros, amarelos e verdes com bolinhas roxas. Retrato do Brasil.

Em Banzaê fecha-se os bares quando passa um cortejo fúnebre. Cumprimenta-se os vizinhos. As crianças brincam despreocupadas nas ruas jogando bola e pega-pega. O vaqueiro ainda conduz sua boiada pelas ruas de paralelepípedos a cavalo com seu chapéu e jaleco de couro, aboiando com a aquela música triste e ao mesmo tempo cheia de esperança.

O rapazinho vende seu pão na bicicleta, apertando a buzinela enquanto pedala, anunciando sua presença pelas ruas. Pão! Pão! Pão! Pãozinho feito à lenha.

Pela manhã as mulheres varrem os quintais e a frente das casas com suas vassouras de catinga de cheiro. O ônibus escolar passa pegando os alunos e deixando-os na outra esquina. Tudo é muito próximo, logo ali.

Uma neblina de preguiçinha envolve o início da tarde, um marasmo denso após aquele cochilo inocente e inevitável depois do almoço. Um cachorro passa. Um gato sobe no muro. O pardal pousa e voa de novo. A galinha foge de um quintal e passeia na rua tranquila. Tranquilas: a rua e a galinha. Tranquila, a vida.

Vida e lei no semiárido

Quando o semiaridense encontra gado na estrada é sinal de boa sorte.

A lavandeirazinha é de Deus. O cachorrinho d’água também. Não pode matar.

Quem é do mar não enjoa e cada planta tem sua lagarta.

Água misturada é um pouquinho gelada e pouquinho natural.

Sandália virada dá azar ou mata a mãe.

Chuva fina é que molha o besta.

Para morrer basta estar vivo.

Neblina baixa, sol que racha.

O que não mata engorda e do chão não passa.

Quem não pode com o pote, não faz a rudia.

(…)

Publicações

  • A invocação; em: Antologia Metacantos (Editora LiteraCidade), 2015 – poema;
  • Pescador de Sonhos; em: Antologia de Poetas Contemporâneos Brasileiros - CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores), 2006 – poema;
  • Relatos e Saudades de Um Quase Poeta, 2006;

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