Saulo Dourado

Foto: Daniele Rodrigues

Bio

Nascido em Irecê-BA (1989), vive em Salvador desde a infância. Em 2005, com uma história sobre as lembranças do interior, venceu o Prémio Literário Ferreira de Castro, realizado em Oliveira de Azeméis, Portugal, na categoria Prosa de Jovens Autores. No ano seguinte, na mesma categoria, foi 1º colocado no Prémio Literário Correntes D’Escrita/Papelaria Locus, de Pávoa de Varzim, com o conto Fuga ao Tema. Impulsionado pelas premiações, passou a escrever e publicar em sites e portais. Ingressou na Faculdade de Filosofia da UFBA, onde se licenciou e se tornou mestre com estudos na linha de pesquisa de Fenomenologia e Hermenêutica. Em 2010, passou a colaborar em A Tardinha, suplemento infantil do Jornal A Tarde, e assinou a coluna O Conto que, até o fim de 2015, onde somou oitenta publicações. Reuniu algumas das narrativas nos livros O que não se fala em Kenakina e Cada Nome é uma Estrela, selecionados nos dois editais de Literatura Infantil de Novos Autores Baianos para a Coleção Pacto de Leituras, daSecretaria de Educação em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado, distribuído em todas as escolas públicas de alfabetização na Bahia. Já recebera o prêmio de Apoio à Criação Literária, da Fundação Pedro Calmon, cujo trabalho redundou em alguns dos contos que seriam publicados em seu livro de estreia na ficção, O Autor do Leão, editado pela Domínio Público, em 2014. Seu segundo volume de contos é O Mar e Seus Descontentes, lançado pela Via Litterarum em 2016. Como professor, tem atuação na educação básica e ensina em colégios da capital baiana.

Produção Literária

Descida

Ela acariciou a capa do livreto de poemas, olhando direto para mim, como se fosse óbvio que, na verdade, era a mim que ela tocava. Passou as pontas dos dedos em meu nome pintado no título, na borda de todas as páginas juntas, antes de enfim abri-lo. Tirou o meu rosto de foco e se voltou para os versos que se iniciavam.

Ao acabar o primeiro poema, ela puxou um brinco. No segundo, o outro. No terceiro, nada. Sem murmurar um som em nenhum desses momentos, foi me deixando afundar contra a poltrona e compreender que a cada conjunto de versos e estrofes ao seu gosto, uma peça do seu vestuário caía. Pulseiras, saltos, colares. Então a blusa, a saia longa. Eu a me perguntar o que não funcionava nos poemas que não a demoviam, em vez de tentar saber que senha mágica continha nos poemas que a desnudavam.

Ela conservava uma última peça, uma calcinha fina, quando no livreto restava um último poema.

Se eu não gostar desse, visto tudo de volta – falou ela, me encarando -. Mas se você me impedir de lê-lo, pode me ter assim como eu estou. O que prefere?

Rompi um gesto autorizando que ela seguisse, o que fez de imediato. Desceu a vista pela folha única e, inédito, subiu outra vez. Desceu de novo, com a ponta da unha triscando o queixo, as sobrancelhas se apertando. Atrasou em segundos a respiração. Perdeu a passividade.

Me deu uma sensação estranha esse. Eu preciso mastigá-lo. Saber o que ele é em mim. Você espera?

Concordei com a cabeça enquanto ela se sentava a meu lado. Ali ficou, entre mirar o teto e descer ao poema, que periodicamente lhe imperava uma renovada atenção. Nisso foram passando as horas, a iluminação se alterando, o barulho das ruas em gradativa calmaria, e eu fechando os olhos até adormecer.

Acordei com lágrimas bem próximas da boca. Não eram minhas. Pertenciam a ela, que roçava em mim a face. Senti pela sua pulsação e pelo seu suor quão sentido eu havia feito. Seria mesmo eu? E por um só instante, me veio um contentamento duplo.

Eu queria ser muito mais nua pra você – disse ela, descendo a minha mão pelo seu corpo.

Eu também – lhe sussurrei.

De Perto da Porta

Vida e Obra de Ligia Cordato

A pia da menina Tatiana

Publicações

  • Foi colunista de contos de ficção do Jornal A Tarde, no suplemento infantil A Tardinha, de fevereiro de 2010 a dezembro de 2015, em um total de 80 publicações, entre contos e crônicas;
  • O Autor do Leão (Editora Domínio Público), 2014 – contos, 90 p;
  • O Autor do Telefone, na Revista FAPESP, em Fevereiro de 2012, na seção Ficção – conto;
  • Há Algemas em Seus Pulsos, na Revista Correntes D'Escrita, de Pávoa de Varzim, em Portugal, em decorrência do Prémio Literário, em 2007;
  • Já publicou contos nas revistas FAPESP - Pesquisa (fev.2012), Lupa (out. 2011) e Muito (fev. 2016) e artigos acadêmicos nas revistas Diaphonía (ISSN 2446-7413), vol. I, n. II, e Griot (2178-1036), vol. 6;
  • O que não se fala em Kenakina (Coleção Pacto de Leituras), 2014 - infantil, 20 p;
  • Cada Nome é uma Estrela (Coleção Pacto de Leituras/Independente), 2016 - infantil, 20 p;
  • O Mar e Seus Descontentes (Editora Via Litterarum), 2016 - contos, 180 p.

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