Paula Piano Simões

Foto: Ricardo Prado

Bio

Paula Piano Simões é formada em Direito pela PUC-RJ e pós-graduada em Produção Cultural pela UNIJORGE. Foi livreira em duas livrarias do Rio de Janeiro (Bookmakers e Argumento) e uma em Salvador (Galeria do Livro). Participou de cursos on-line promovidos pela Publisher Flávia Iriarte, da editora Oito e Meio, e do curso de contos com Mayrant Gallo.

Produção Literária

Estamos em que dedo?

André, Bruno e Tiago vão passar o final de semana na casa de campo que fica no alto da serra. Já fizeram essa viagem muitas vezes, mas desde que entraram no automóvel não pararam de se cutucar e fazer perguntas.

– Falta muito pai?

– Estamos em que dedo, mãe?

Essa história de dedo foi a maneira encontrada pela mãe para explicar aos filhos em que pedaço da viagem eles estão. Se ainda falta muito ou se já estão chegando.

A mão inteira representa toda a viagem, do começo até o fim. Como uma mão tem cinco dedos, cada dedo representa um trecho da viagem.

Tudo começa no dedo Mindinho, quando o carro sai da garagem, contorna a lagoa e entra no túnel.

Ao sair do outro lado entra-se no Seu Vizinho. Na verdade, esse dedo é uma avenida bem larga, cheia de pistas e muito movimentada. Não dá para ir muito rápido por causa da grande quantidade de caminhões e ônibus que circulam por ali. Às vezes um carro bate em outro e demora-se mais tempo para chegar ao próximo dedo.

O Pai de Todos começa depois de uma curva bem acentuada à direita. Agora o carro corre ligeiro até que é obrigado a parar no pedágio.

– Falta muito pai?

– Estamos em que dedo mãe?

– Só faltam mais dois dedos, filho.

Pelas janelas os meninos vêem vacas pastando, uma infinidade de arvores e, de vez em quando, um velho ou um menino sentado debaixo de uma lona vendendo aipim e banana.

A mãe tira um cochilo, mas de repente acorda assustada com o barulho que vem do banco de trás.

– André, pare de implicar com seu irmão!

– Mas foi ele que começou!

– Não quero nem saber! Se não parar agora coloco vocês dois de castigo assim que chegarmos ao sítio.

– Pai estou com vontade de fazer xixi…

– Não dá para segurar até chegarmos em casa?

– Acho que vou fazer nas calças…

O pai para o carro e Tiago se esconde atrás de uma árvore.

Quando o irmão volta Bruno cutuca o pai e diz:

– Eu também quero…

– Pô filho, por que não foi junto com seu irmão?

Finalmente, todos se acomodam e a mãe avisa que em breve estarão no quarto dedo, o Fura Bolo.

O pai diminui a marcha para que o carro ganhe mais força ao subir a serra.

A estrada é íngreme e sinuosa. Quando o carro vira à esquerda, Tiago tomba em cima de Bruno que empurra André contra a janela. Quando o carro vira a direita é a vez de André cair sobre Bruno, que espreme Tiago contra a outra janela.

O pai olha para a mãe e diz:

– Isto não vai acabar bem…

Os irmãos repetem a brincadeira uma, duas, três, várias vezes. A cada curva da estrada cantam Uóoom!!!

Até que Bruno empurra Tiago com mais força, que se machuca e começa a chorar.

A mãe se vira zangada e dá uma bronca nos três.

– Parem já com essa brincadeira boba! Sentem-se direito! E pare de chorar Tiago!

Finalmente chegam ao último dedo, o Mata Piolho. Só falta atravessar a cidadezinha, cruzar os vários sinais e entrar no longo e estreito caminho de terra que leva até ao portão do sítio.

Os garotos pulam para fora do carro, mas o pai os chama de volta para que ajudem a descarregar o porta-malas.

Depois de tudo arrumado é hora de aproveitar e dar muitos mergulhos na piscina, jogar futebol com o filho do caseiro e brincar com Tadeu, o cachorro, porque dali a dois dias vai começar tudo de novo.

– Falta muito pai?

– Estamos em que dedo, mãe?

Publicações

  • A pergunta mais importante – Humanidades , 2014;
  • Escritor Profissional; em: Coletânea de Contos, vol.1, 2016.
  • O Menino Enrolado; Editora Caramurê,2016

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