Darcy Brito

Foto: Luisa Costa

Bio

Darcy Nogueira Brito é graduada em História Natural pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da UFBA, foi professora de Biologia do Colégio Estadual da Bahia (Central) no período de 1968 a 1993 e vice-diretora dos Colégios Estaduais de primeiro Grau: Colégio Estadual de Primeiro Grau Ruy Barbosa, período de 1973 a 1980; e Colégio Estadual de Primeiro Grau Pedro Calmon, período de 1981 a 1987. É pós graduada em Saúde Pública pela Faculdade Estácio de Sá do Rio de Janeiro.

Produção Literária

O baú do vovô pança

Era uma vez um menino chamado Ric, na verdade esse era o apelido de Ricardo, que seu avô botou desde que

ele nasceu. Ric chamava o avô de Vô “Pança” por causa da barrigona. Era o neto preferido por ser Ric muito curioso. Vô Pança costumava dizer: “você vai longe porque é muito curioso, curiosidade é força propulsora, não

fosse ela a ciência não avançaria e muitas doenças estariam sem cura até hoje”.

Vô Pança tinha um pequeno baú onde guardava coisas do passado e Ric vivia perguntando o que tinha ali dentro.

– Coisas velhas, Ric, sem utilidade nos dias de hoje – respondia o avô.

– Mas eu quero vê, você me prometeu que quando eu melhorasse da febre iria me mostrar.

– Nem me lembro, quando foi isso?

– Na semana passada vô, tá broco?

– Tou ficando. Acho que meus neurônios estão se desconectando.

– Que são neurônios?

-São as células que compõem o nosso sistema nervoso, nosso cérebro, que guardam memórias e nos fazem aprender e pensar. Eu tenho muita coisa guardada na memória.

– Assim como no baú?

– É, e eu nem sei mais o que tem guardado nesse baú. Deixa lembrar: bolas-de-gude, uns soldadinhos-de chumbo, uma flâmula do Flamengo, coisas do meu tempo de criança e mais algumas tralhas. Prometo que mostrarei no próximo domingo.

– E para que serviam essas coisas Vô? Soldadinho de Chumbo, flâ..o quê? Como ligava?

– Ah! Não ligava em nada, não tinha fio nem tomada. Vamos combinar: eu descrevo cada uma dessas coisas e você vai imaginando, usando os seus neurônios. Aí, sua curiosidade vai aumentar, e, quando eu abrir o baú, você vai vê se era exatamente igual à sua imaginação, certo? – Certo, Vô.

– Então vamos começar pelas bolinhas- de- gude: são bolinhas de vidros coloridas, umas maiores outras, menores, que a gente comprava nos armazéns do bairro ou então ganhava nos jogos com os amiguinhos.

– Jogos de bolas de gude?

– Sim, era muito legal. As bolinhas eram lisinhas e cabiam entre dois dedos. Ainda podemos encontrar muitas bolinhas-de-gude à venda, mas duvido que tenha criança querendo ou sabendo jogar com elas.

– Como era que se jogava? O nome do jogo.

– Depende. Tinha o bater-ganhou; veneno, que muitos chamavam de limite; Triângulo, ou losango, a depender.

– Nossa Vô! Explique aí esse troço.

– Bem, vamos por partes: bater-ganhou, por exemplo, dependia de muita pontaria. O companheiro, ou adversário do jogo, colocava a gude no chão, este tinha que ser de barro bem batido, como nos quintais de antigamente. Aí, o outro fazia pontaria com sua gude de tal forma que pudesse bater na gude que estava no chão. Se acertasse ganhava a gude do adversário. Ah! Eu era craque nisso. Lembro como hoje. Tinha uma sacola cheia de bolas-de-gude. Às vezes vendia umas para companheiros. Não tinha muito valor comprar gude no armazém. Bom era ganhar no jogo, e a gude que mais acertava no bater-ganhou a gente não vendia nem dava pra ninguém, podia até estar cascuda. Era especial e tinha o nome de gude-castelo, não sei por que. Valia muito e, às vezes, se acontecesse de perdê-la, quem achasse não dizia, para que o dono perdesse os próximos jogos. Mas eu era leal. Certa vez um companheiro perdeu a dele e até ficou doente, porque não conseguia ganhar mais nada. Aí eu passei o dia no quintal da casa dele procurando, e fui achar no lixo, num cantinho do muro, que a empregada costumava amontoar, e entreguei para ele. Na competição temos que ser honestos, senão que valor tem a vitória?

– Estou achando legal, Vô! Quero que você me ensine a jogar bater-ganhou.

– Com todo prazer! Mas deixe eu lhe explicar os outros jogos com as bolas-de-gude. Qual foi o outro mesmo?

– O tal de Veneno.Por que esse nome?

– Era assim: Fazíamos três buracos pequenos no chão do quintal, com uma certa distância um do outro, que variava de acordo com os critérios estabelecidos na hora. – Como o golfe?

– Sim, só que a distância era bem menor que a do golfe. Então, ficávamos alinhados, distante do primeiro buraco, e cada um jogava a sua bolinha em direção a ele. Quem chegasse mais perto ou caísse no primeiro buraco, estaria em vantagem para seguir em frente até o terceiro buraco e retornar. Quem primeiro conseguisse retornar a sua bola-de-gude ao primeiro buraco, se transformaria em “veneno”, e aí podia matar as bolas adversárias, se tivesse pontaria. Geralmente quando um caía num buraco já saía afastando as outras bolas, mas

sem matar. Media um palmo e tentava acertar a bola que estivesse perto do outro buraco. Quem já era veneno

podia matar a gude de qualquer um. Era mais demorado, esse jogo. Os três buracos ficavam a uma distância formando um ângulo de 45 graus.

– Que emocionante Vô pança! E o outro tal de triângulo ou losango?

– Esse era mais trabalhoso. A gente desenhava um triângulo ou losango no chão e, cada um colocava lá dentro as suas gudes, às vezes uma de cada, ou mais de uma, dependia da aposta. Traçávamos uma linha reta em frente e bem distante do desenho onde estavam as bolas e ficávamos posicionados sobre ela, a linha. Cada um jogava a sua bolinha-de-gude em direção ao desenho, cheio de gudes. Geralmente ficávamos agachados e a bola seguia rasteira. Quem conseguisse tirar mais gude de dentro do espaço desenhado, ia ganhando. Depois retornava à linha e ia tentando tirar mais gude até o espaço ficar vazio. Ganhava quem mais tirava bolinhas. Bons tempos aqueles do Sobrado, de quintal grande com bananeiras, de quando eu era criança. – Puxa, que legal!

– Que mais eu disse que tem no baú, Ric?

– Os soldadinhos-de-chumbo, Vô.

– Ah! Ainda estávamos sob os efeitos do fim da segunda guerra mundial, e talvez o brinquedo mais atraente fosse brincar de soldado. Eu tinha uma caixa cheia deles, que sua bisavó comprava numa loja chamada “Quatro e quatrocentos”, assim como hoje tem essas chamadas de 1,99. Era uma loja grande, de departamento.

Depois os soldadinhos de chumbo viraram soldadinhos de plástico. Mas o brinquedo era muito divertido.

Arrumávamos os soldados em várias posições estratégicas para atacar o adversário que ficava no extremo oposto do corredor da nossa casa, e aí começava a guerra no fronte, uns derrubando os outros, comandado por quem tinha soldados. Não lembro de que forma se ganhava ou perdia a guerra. Na verdade, o que acontecia, é que os companheiros acabavam, eles sim, brigando entre si, querendo recuperar seus soldados. Isto prova que guerra não traz benefício nenhum, é mais perdas que ganho. – As armas dos soldados-de-chumbo disparavam?

– Não! A gente fazia o estampido com a boca. Taratatá, taratatá, quando atingia um soldado com uma bolinha de metal bem pequenina, uma esfera.

– E as tais flâmulas, era um jogo?

– Não. Era uma espécie de bandeirinha de pano, de formato triangular, com desenhos e cores do time..

Tinha gente que colecionava flâmulas e colocava na parede do quarto. Mas eu só tinha uma. Vou desenhar para

você entender.

– Vovô pança desenhou a flâmula – Só isso?

– Só isso. E o que mais você quer saber?

– O que mais tem no baú.

– Quando abrir você verá. Não lembro agora.

– Não sei como você conseguia se divertir sem computador.

Publicações

  • Infanto-juvenil " A Rebelião do Melão Amarelão e seus Amigos – 2010 - Editora Romanegra;
  • "O Bau do Vovô Pança" - 2014 Editora Travassos;
  • Os Dois Mundos de Prudêncio (Editora Garcia Edizioni) -2014;
  • Onde Estou? 3 – Editora Usina de Letras – 2013 - Romance;
  • "Os que Desaparecem nunca Morrem" (Editora Usina de Letras), 2009 – romance;
  • Rainha sem Faixa, 2005 – romance; Duas edições;
  • Conto Avulso - A Revolta dos Personagens; em: Jornal À Tarde da Bahia, no Suplemento Cultural, em Setembro de1998 – conto;
  • Participação na Antologia 10 Anos da Usina de Letras – poesias;
  • Coletânea de contos "A Carta que não Escrevi" - Editora APED;
  • Participação em Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia - Círculo de Estudo Pensamento e Ação - Org. Carlos Yeshua.

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