Daniela Galdino

Foto: Milena Palladino

Bio

Poeta, Performer, Mobilizadora Cultural e Pesquisadora da área de Literatura. Daniela Galdino é docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde coordenou o Comitê Local do PROLER (2012-2015) e desenvolve projetos de formação continuada em Artes. Colaboradora do Coletivo TEAR (Garanhuns-PE), em fevereiro de 2016 desenvolveu residência artística no agreste pernambucano, a convite do referido grupo. De tal ação resultou a performance “Missivas”, que destaca a poesia erótica. Desenvolve projetos artísticos em parceria com músicos diversos, percorrendo eventos literários na condição de Performer. Durante o mês de outubro/2013 realizou circulação literária pela Alemanha, participando de eventos culturais em Hamburg, Bremen e Berlim. No Brasil destaca-se a participação, como poeta e performer, no Festival Macuca Brinquedos Populares (CorrrentesPE, 2016), lançamento da revista Palavra (SESC-Arcoverde/PE, 2016), I Feira Literária de Itabuna – FELITA (Itabuna, 2014), I Festa Internacional Literária da Chapada Diamantina (Lençóis, 2014), XI Bienal do Livro da Bahia (Salvador, 2012), 18° Congresso de Leitura do Brasil (Unicamp, 2012), Festival Nacional Amar Amado (Ilhéus, 2012) e AltFest Fliporto (Olinda, 2011).

Produção Literária

Dilúvio

Barco

você descasca

cenouras

para a salada

que não comerei

 

(Villa-Lobos na tv)

 

eu falida de verbos

sentada

à beira da tarde

costurando ruídos

 

(Villa-Lobos na tv)

 

nesta primavera

de fugas

bendita nossa fome

o resto é tormento

-cena um-

… a casa em petição de desordem aparente… de um lado, a mochila, com a boca aberta, pede esvaziamento… no outro extremo do quarto uma pequena mala (impaciente) deseja ser preenchida… já tropecei numa sacola de farmácia – foi óbê pra todo lado… menos pra dentro de mim… essa metáfora gasta do partir-chegar-partir (o ineditismo reservo para os ecos poderosos de Milton Nascimento)… aquele amplo plano inicial me atrai… sou observadora distante em Pompeia… sou aquela ânsia e rasgo os céus dos contentamentos… é a hora do almoço… contra os carros que anunciam eunucos estridentes… contra a atração pela miséria visual alheia… aqui em casa toca um rock progressivo… talvez os vizinhos me odeiem por isso… peço licença a Drummond pra dizer que a literatura acentuou não só as minhas melhores horas de amor… a literatura acendeu as madrugadas, os dias, os minutos cruciais… estou toda remendos de lombadas, folhas amarelecidas, anotações de canto de página (feitas a lápis, por isso passíveis de desaparecimentos), dedicatórias rasuradas… começo a pender para direções esquecidas… se eu tivesse a coragem da garota de Columbia diria muitas dores alheias entranhadas … arrastaria os mil colchões dos meus terrores até o fim… mas eu sinto medo de falar: descobri o que se deu naqueles segundos limítrofes em que uma moça optou pela fuga total e aquela outra pela parição desenfreada e a mais distante escolheu cortar o cordão antes dos tempos naturais… esta segunda-feira irreversível acentua a minha descoragem e a minha descoragem é cúmplice do vital assomo… eu queria ser uma rima entre o coração de Raimundo e as trompas de Macabéa…

-cena dois-

… o quintal era de tarde… no chão batido eu contava, subtraía, soletrava… eu conjugava sílabas e algarismos… montava o álbum de figurinhas dos meus sonhos comprimidos… em rasgos de dezessete horas veio painho falar comigo… “guarde o meu anelzinho bem guardadinho” – foi o que pensei… dividindo as minhas mãos rajadas de terra ele depositou um anel… disse que eu estava noiva… o casebre dos meus doze anos e meio, todo com paredes remendadas, estremeceu por dentro… dali a sete dias eu estava na cidade… fiz a travessia em lombo de carroça… fui calada, diluviando incertezas… duvidava se painho estava brincando ao gritar, lá do portão: “tu não me traga demanda da tua casa para a minha”… casar eu sabia o que era… remendar as calças do marido, fazer comida gostosa, cuidar das crianças, deixar tudo limpo para receber visita domingo sim outro não, dar de comer aos porcos, às galinhas, coarar as roupas na pedra e, quando de noite, deitar em cama separada… e casar também era esperar pelo marido que chegaria só no vindouro da manhã incerta… dali a sete dias eu estava na cidade… comecei o casamento sozinha… levei uma tarde, uma noite e a madrugada trancafiada no sobrado que tinha chão encerado de vermelho… a fome tranquiliza pensamentos (quando violenta a fome inebria, amortece a cabeça, dá leseira profunda … sono bom… mecanismo de defesa)… invadindo o meu sonho ele chegou (suando a aguardente dos vencidos)… da cama não me levantei… ele amarrou as minhas mãos na cabeceira… espalhou as minhas pernas… espirrou sangue, suor e aquele imundo sêmen… doze meses assim… cofre com chave perdida no bolso do esquecimento… mainha falava comigo soprando palavras por baixo da porta… e eu aprendi… colecionava moedas, dinheiro de papel e ódio encruado… minha prima (toda semana) parava em frente ao sobrado… eu jogava um pacote amarado com barbante…. moedas, dinheiro de papel e ódio encruado compraram a minha fuga… … maldito seja o meu pai… maldito seja aquele desprovido de tudo… maldito seja o trabalhador boa paga que honrou a dívida contraída nas ribanceiras do tempo … maldito seja, na direção dos infernos, o meu pai – aquele que me ofereceu como paga e me lançou nas esquinas do desatino…

Publicações

  • Co-organizadora do nº 2 da Revista Organismo (Editora Organismo, no prelo) - poesia erótica;
  • Integra a Revista Poesia & Cia - poesia erótica - nº 11 (Edições Maturi, 2016);
  • Integra a Revista Literária Organismo nº 1 (Editora Organismo, 2015);
  • Organizou o livro Profundanças - antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2014);
  • Integra a coletânea trilíngue Autores baianos: um panorama (P55 Edições, 2013);
  • Autora de Inúmera (Editora Mondrongo, 2011) – poesias;
  • Participa da antologia poética TOC 140: os cem melhores poemas no twitter (FLIPORTO Digital, 2011);
  • Em 2009 e 2010, respectivamente, integrou a 1ª. e 2ª. edições da coletânea Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna (Itabuna, Ilhéus-BA: Via Litterarum/Editus);
  • Publicou Vinte poemas caleiDORcópicos (Via Litterarum, 2005);
  • Organizou os livros Tessitura azeviche: diálogos entre as literaturas africanas e a literatura afrobrasileira (Editus/Uniafro/MEC) e Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade (DP&A/UERJ/Fundação Ford).

Links

www.operariodasruinas2.blogspot.com.br

Contato

galdinodani@gmail.com