Anton Roos

Foto: Claudio Foleto Marchewicz Jr.

Bio

Jornalista, graduado pela Faculdade São Francisco de Barreiras (FASB) e pós graduado em Jornalismo Digital na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atuou como repórter e editor do Jornal Classe A entre os anos de 2009 e 2013. Foi editor da Revista A, de circulação regional, onde mantém uma coluna bimestral. Atualmente publica crônicas, toda segunda-feira, no blog da agência de comunicação integrada IMMAGINE e trabalha com assessoria de imprensa na Prefeitura de Luís Eduardo Magalhães. Em 2014 publicou seu primeiro livro de crônicas, A gaveta do alfaiate. No ano seguinte, estreou na ficção, com o conto Adolfo na antologia Fragmentos e o livro A revolta dos pequenos gauleses, coletânea de seis contos, lançado em novembro.

Produção Literária

A gaveta do alfaiate

  1. Talvez

 

O cursor pisca vagarosamente na tela em branco. De novo. É a terceira vez essa semana. Apagão. Mãos a cabeça. Concluo:

— Falta inspiração para escrever. O texto não está fluindo.

Saio. Desço os quatro lances de escada. Olho para rua em aclive. Subo, depois desço. Redenção. Caminho. Canso. Volto. Subo os quatro lances de escada. Respiro. Estou cansado.

Constato, ofegante:

— Estou fora de forma.

Volto para o computador. O cursor piscando me irrita. Coloco água no fogo. Vou ao banheiro. Xixi. Descarga. Lavo as mãos. Volto para a cozinha. Preparo um café. Bebo uma generosa xícara. Pouco açúcar. O aroma talvez ajude a escrever, espero.

Penso. Uma, duas, três. Demais. O tempo passa e nada.

A tela continua em branco. Ideias. Desespero. Abro as janelas. Do quarto. Ar fresco. Da internet. Distração. Nada que ajude. As ideias continuam vagas. Passeiam com sofreguidão. Nenhuma agrada. Penso:

— Vou desistir. Quem sabe na quarta vez, tenha mais sorte com as letras.

O cursor, por fim, continua piscando, tão vagarosamente como antes. Decido. Aperto o botão. Desligo. Off. Cato um livro. Folheio. Penso. Preciso me concentrar. Leio. Cochilo. Fica pra próxima. Talvez na quarta tentativa o cursor deixe de piscar na tela em branco.

Talvez.

A revolta dos pequenos gauleses

Era automático. Toda vez que passava pela rodovia margeada pela enorme plantação de eucaliptos, o pé direito pressionava o pedal do freio de tal modo que o veículo reduzia em até 20 km a velocidade. Só para o olhar se perder naquela imensidão de robustez marrom e copas verdes e a visão encontrar pequenas fendas diagonais entre os troncos das imponentes árvores. Toda vez era assim. Passar por ali sem deixar o olhar vaguear pela vasta plantação era o mesmo que sair de casa todas as manhãs sem higienizar a boca ou sem usar o inalador de ar para que a respiração fluísse melhor.

E ele não só higienizava a boca e utilizava o inalador todas as manhãs, como repetia a operação ao menos outras três vezes ao longo do dia. Questão de necessidade. O mesmo com a plantação de eucaliptos. Quatro vezes por dia e quatro vezes o pé no freio e a visão se perdendo entre as fendas, ocasionadas pela fixação do olhar no ponto estável entre um tronco e outro. Um corredor interrompido por um feixe de luz esguio ao fundo, quase imperceptível e só percebido quando procurado com atenção.

As duas mãos ao volante e a cabeça levemente voltada para a esquerda, sempre que ia, e para a direita, quando a intenção era voltar para o trailer, que desde se recuperou do trágico acidente transformou-se em morada. Entre os troncos, no enorme corredor que a visão lhe permitia enxergar, sempre a mesma expectativa e cenário. Uma luz ao fundo, pensava ele, devido o limite da coleção de árvores enfileiradas a cerca de dois metros uma das outras, como se guardassem respostas tão obscuras quanto as que ele procurava. A luz, enquanto o dia era dia, era o outro lado da plantação e nada mais.

Todas as sextas-feiras, no entanto, o ritual se acentuava. Talvez porque só voltaria a se repetir na segunda-feira. A última passada pela rodovia, já com a noite de testemunha, era sempre a mais vagarosa, daquelas de fazer vontade que todas aquelas árvores se perpetuassem mais alguns quilômetros, a espera, quem sabe de algum sinal que o fizesse tomar coragem para parar e seguir até o ponto de luz, ainda que minúsculo, mas longe de não ser intenso e, por que não, convidativo.

Só para ter a certeza que o mundo podia ser bem mais do que aquele que estava acostumado, sem a necessidade de aumentar o volume do som do carro para não ouvir tão nitidamente os grunhidos que martelavam sua cabeça ininterruptamente. Eu podia ter evitado. O sorriso que escapava era tímido, com os lábios mal se mexendo no rosto esguio quase estático, coberto por uma cicatriz enorme, que percorria a extremidade dos lábios até a lateral do olho e parte da orelha, reduzida então a um quase chiclete mascado, moldado pela criança que cola sua goma de mascar sem açúcar debaixo da carteira em sala de aula.

A queimadura deixou a pele contorcida e ainda mais roseada, frágil como papel manteiga, capaz de afastar olhares e causar repulsa nele próprio, sempre que precisava olhar para o espelho, e lembrar-se de tudo que aconteceu.

Nos autofalantes, sempre o mesmo refrão, todas as noites, no trajeto de volta, com o olhar direcionado para as fendas em diagonal de todas aquelas árvores. Our love leads to madness. O clássico do grupo Nazareth, seu preferido desde a infância, quando a empregada lavava a louça cantarolando as estrofes de “Love Hurts”, que tocava na rádio enquanto ele observava a camiseta molhada grudar nos seios pequenos tão perfeitos quanto dois pêssegos maduros, ou ainda “Dream On”, a música que ouviu no quarto do motel, na primeira vez que transou com a pessoa que agora era só uma lembrança de tudo que sonhou e não pode viver.

A impossibilidade de soltar a voz para imitar os trejeitos de Dan McCarthy, estava longe de ser um empecilho. O grunhido meio abafado confundia-se com a lágrima inquieta e solitária que escorria do rosto, ainda com a visão compenetrada no vão entre os troncos eretos da quase floresta imponente que se agigantava à sua direita. A mesma de outrora, que lhe impôs o rompimento do que cria ser a plena felicidade e agora o mantinha preso numa redoma inconsciente e particular.

Olhar para dentro da fenda, mesmo à noite, havia se tornado um hábito, até certo ponto insano, dosado na cumplicidade da caminhonete F-1000 em velocidade reduzida e de uma inquieta projeção da visão, talvez, como à procura de alguma explicação razoável ou mesmo de um motivo que lhe fizesse retomar a vida e seguir em frente. Nos minutos diários olhando para o vazio, tudo o mais deixava de fazer sentido, embora, desde o acidente, os raros momentos de lucidez estivessem fincados ali, naquele trecho de rodovia, e na lembrança da estupidez momentânea ao volante.

Publicações

  • Participou, com um conto e três crônicas, da antologia Fragmentos, 2015.

Contato

antonroos@gmail.com