Amós Heber

Foto: Andrea Magnoni

Bio

Amós Heber é escritor, ator e cantor. Participou do cilco de cursos Escrtitas em Trânsito da FUNCEB, nos anos de 2013 e 2014, no qual foi aluno de Noemi Jaffe, Luiz Antonio de Assis Brasil, josé Luis Passos, Leonardo Villa Forte e Joca Reiners Terron. Foi premiado em terceiro lugar na categoria conto no I concurso do servidor público estadual, Bahia, com o conto Alma Faminta. Lançou em 2015 o seu primeiro livro autoral denominado Furúnculos, fruto do edital do setorial de literatura FUNCEB em 2014. Foi premiado com uma bolsa de criação literária da Fundação Biblioteca Nacional, atual DLLLB do Ministério da Cultura em 2014. Com esta, está desenvolvendo o seu segundo livro autoral intitulado Sinal Fechado, voltado para casos de violência urbana e doméstica no Brasil.

Produção Literária

Alma faminta

Dor? E a senhora pensa que era dor? Não, não era nada disso, não. Não sei o que é isso, não. Eu lembro que quando Ele chegava, a água estava sempre fervendo. Eu gosto de feijão feito na hora. Esse papo de que feijão dormido é bom é conversa para boi dormir. Agora, eu não vou falar das coisas agora, não. Isso, a senhora sabe, me deixa assim, meio nervosa, me dá gastura. Não sei dizer o que é isso, não.
A gente tem um filho pequeno. Foi Ele mesmo que deu o nome. Eu só pari. Hoje, vejo mais, não. O menino chorava muito. Não tinha simpatia nesse mundo que fizesse ele parar de chorar. Acordava, chorava, comia, chorava, brincava, chorava, caía, chorava. Só parava de chorar quando Ele chegava. Ele sumia o dia todo. Quando chegava queria o feijão feito na hora. Aí, o menino parava de chorar. Eu ia pra cozinha. Me metia ali por mais de horas fazendo o feijão desgraçado. Ele brincava com o menino e eu cortava as carnes. A vida era uma desgraça. O feijão tá pronto?
Dona Duda me tirou do emprego. Ana Maria, você chega todo dia atrasada! Eu senti mais porque eu era muito apegada aos meninos. Eu tinha coisa com eles. Que olho é esse? Com meu menino, não. Ivan dormia nos meus peitos. Natasha pedia para eu pentear os cabelos dela. Ele? Ele tava vadio. A obra tinha acabado. Até Ele conseguir outra, era um inferno. Cuidava do menino em casa. Eu criava os da rua. O menino sente falta da mãe dele. O mesmo nome dele. O nome do pai dele. O nome do avô dele. Sei lá, era tanta loucura! O nome do meu sogro… cabra macho, valente. Não passava dia sem pegar na enxada. Ele, parado. Vixe, tristeza. Escondia os detergentes. Quando acabava a cachaça, não ficava nem perfume. Uma desgraça… Meu filho, quando crescer, vai ser igual a mim. Ele queria ser igual ao pai. Igual ao avô… vai honrar o sangue da família.
Ele me deu flores. Todo comportado, bem vestido. Pedreiro. Me achou no interior. Pai era caseiro da fazenda. Mãe limpava as coisas. Vou levar sua filha pra capital. Ela casa comigo. Quando o telhado da sede já estava todo montado, a gente saiu de Ituaçu. A miséria começou mais tarde. Lá em Pau da Lima, a casa era grande, bonita. Tinha muita vizinha boa. A gente plantou rosas, graxeiras, copo de leite… O menino nasceu. Nós mudamos para o barraco. Levei comigo um buquê. Rosinhas… Alagados. Palafitas. Perdi meu emprego. Um vão só: eu, Ele e o menino. Esgoto, lixo, rato, barata, carcaça de galinha. Fome. A senhora já ouviu a voz do estômago? O menino chorava. Eu sempre gostei de flores. É um grito grosso.
Seu marido passa o dia inteiro no bar? Dona Duda me mandava uma ajuda todo mês. Agora tinha filho pra criar. Comia pouco. Ele bebia quase tudo. Escondia. Embaixo do menino, forro do colchão, lata do leite, dentro do sutiã. Tapa. Murro. Sangue. Puta! Chorei. A vida era uma desgraça… Palavra feia, mulher! Desgraça só chama desgraça. Ela me ajudava muito. Dormia e acordava de olho aberto. Panela, facão, chinelo, tábua, vassoura, cinto, foice, cipó, urtiga. Deixa eu voltar a trabalhar em sua casa? Sei lá, cada dia era uma coisa mais louca que a outra. Eu posso dormir aqui hoje? Mulher, cadê o meu feijão? Por que você não vai à delegacia das mulheres? Voava tudo. É uma delegacia pra mulher ficar presa? O que estivesse na frente dele… Você vai lá comigo, hoje! Demorando. Mulher feia da desgraça, cadê meu feijão? Falei o quê? Era tanta ameaça. Se não ficar pronto em meia hora… Bebe. Fuma. O dia inteiro. Não. O menino fica com Ele. Já passaram dez minutos. Ele leva pra rua. Só chora quando está comigo. Cheira. Outra? Deve ter. Ela não tem como se defender, mal sabe escrever o próprio nome. Faltam só dez minutos, eu vou cuspir no chão. Vocês precisam fazer alguma coisa, olha esse seio! Eu te falei o que, sua vagabunda? Se eu não fizer? Os vizinhos acordam. Ana Maria, a gente não pode desistir.
– Você conhece o amor, Aninha?
– Eu gosto de ver nossos meninos brincando juntos.
– Qual é mesmo o nome do seu menino?
– Tá gostando da nova moradia, Celinha?
– Mário disse que até o final do ano a casa no Alto do Cabrito fica pronta. Pelo menos aqui é perto da escola de Maricélia.
– Eu sinto saudade de morar no Pau da Lima.
– Menina, você é uma cozinheira de mão cheia. Que feijão delicioso.
– Lá tinha chão, não era palafita. Eu tinha um jardim no quintal.
– Não sei como é que Ele reclama tanto do seu feijão.
– Eu tinha menos gastura.
– Aninha, conta pra mim, o que está acontecendo?
Setembro era o mês que dava mais flor na fazenda. Mulher, consegui uma obra lá na Barros Reis. As feridas
fecharam. O menino não chorou mais. Já tá na hora de botar ele numa creche. Ana, você está mais tranquila, minha filha? Muitas flores. Com o emprego em Dona Duda dava pra comprar a comida. Ele chegava em casa cedo. Pegava o menino na escola. Chegava depois. Ele cozinhava pra mim. Meninico, buchada, mocotó, sarapatel. As carnes eram sempre pesadas. Comida de peão! Dava sustança. É bom, não é bom? Eu apertava as costas dele com as mãos. Bem forte. É, nega, desse jeito a gente vai acabar fazendo outro menino. Levamos o menino para ver o desfile de 7 de setembro. Ele me deu de aniversário um perfume de rosas. Ana Maria, como você deixou isso acontecer? A gente dançou seresta. Grávida de três meses, de um homem desse? Dormimos juntos. Você perdeu o juízo. Como marido e mulher. Em dezembro, a obra acabou.
Já tava meio buchadinha. O menino voltou a chorar. Ele também chorava. Agora era Ele e o menino. Muito choro. Não consigo nada, mulher! A culpa é sua, só pode ser coisa sua… você é uma desgraçada. Jarro de cristal. Presente de Dona Duda. Quadro da parede. Foto de pai e mãe. Televisão. Comprei no crediário. Banco do menino. Um vizinho marceneiro… madeira de lei. Meus dois dentes da frente. Desgraçada. Muito sangue, vixe. Toma cuidado, mulher feia, vai entrar passarinho nessa janelinha. Tremedeira nas pernas. Feia, feia, feia, feia, feia, feia, feia, feia. A mão na barriga. Garrafa de aguardente. Tava tudo no chão. “Eu venho lá do sertão/Eu venho lá do sertão/E posso não te agradar”. Menino dormindo. Levanta daí. Sangue nas pernas. Tô mandando, Mulher. Sangue no chão. Levanta, porra! Menino dormindo. Mão puxando cabelo. Fica de pé, me obedece. Soco no estômago. Sua puta! Menino morto. Desgraçada. A vida era uma desgraça…
Eduarda de Carvalho. Ivan e Natasha brincavam com a janelinha. Ela é uma pobre indefesa. Eles riam, pegavam, metiam o dedinho, riam. Não é possível que vocês não façam nada para ajudá-la. Eu gostava. Eles tinham um negócio por mim. Vocês estão esperando que uma tragédia aconteça? Eu tinha um negócio por eles. Eu temo, temo muito pela vida dessa pobre coitada. A gente brincava o dia todo. Isso é uma Delegacia da Mulher? Eu sempre perdia o ônibus de volta. Meu senhor, ela não consegue falar, entenda! Chegava mais tarde em casa. O senhor não tem avó, mãe, mulher, filha? Ia andando bem devagarzinho. Um desnaturado! Era muito puxado fazer feijão de noite. Todos vocês, filhos de chocadeira. Sei lá, queria tomar um banho, comer alguma coisa e dormir. Escolhe Ana Maria! Pegava muito cedo em Dona Duda. Ou Ele ou seu emprego. Mas era uma alegria trabalhar em Dona Duda. Os meninos vão crescer vendo isso? Cozinhava, lavava, cuidava de Ivan e Natasha, comia na mesa deles, via televisão com eles. Quem sabe, sem o seu dinheiro, Ele não para de beber? Ivan chorava quando eu saía. Conta comigo, Ana Maria. Natasha mandava Ivan parar de chorar. Ela volta amanhã. A minha casa é a sua casa. Passei o outro dia em casa.
Eu, Ele e o menino. As carnes estavam cortadas. Sabe o que eu descobri hoje cedo? Os temperos separados. Que você é uma desgraça! Tinha até legumes. O menino chorava. Uma sobra de mocotó. Uma desgraça! Celinha quem deu. Ouviu? Uma desgraça! Ele foi pra sala. O Choro do menino parou. Passou pra mim. A carne salpicando no óleo. Os olhos cheios de lágrimas. Vai demorar hoje de novo? Muita agonia. Mulher, esquenta uma água pra mim. Domingo, se não me engano. Tinha futebol na televisão. Queria tanto tomar uma cerveja. Gol! Mas Ele bebia tudo. Mulher, tá esquentando a água? Era bom, podia aliviar. Muita agonia. Gostava de ficar agoniada não. Mulher, cadê o feijão? Podia fazer besteira. Sei lá. Vou comer primeiro, chama o menino. Tinha fome. Não, desgraça, sai daqui. Muita fome. Vai comer o resto. Saco vazio não fica em pé, não é? O que eu e o meu filho deixar… sai! Ainda tava passando o jogo. Esqueci a água no fogão.
Tomei um gole de aguardente dele. Queria uma cerveja. Outro gole. Ele comia feito um animal. Outro gole. Ouvia os ossos quebrando nos dentes dele. Queria um pedaço de carne. Outro gole. O mocotó de Celinha tava com uma cara boa… Outro gole. Tô cheio! Outro gole. Vou dormir. Comi um pedaço de carne. Come tudo não, ouviu, desgraça? Ele acabou com o mocotó. Tinha carne. Queria tanto o mocotó de Celinha. A água ferveu. A senhora sabe fazer mocotó? O menino dormiu. Pata, osso… Desliguei a televisão. Gosto do tutano. A água ainda estava fervendo. Aquela gordura que fica no osso. Queria tanto fazer um mocotó. Ele roncava. Tomei mais aguardente. Ele dormia de barriga pra cima. Pra matar aquela fome só um mocotó. A água ferveu na cama. Pata, osso, tutano. Os vizinhos acordaram com os gritos. Já gosto de um mocotó. Polícia? Gritaria… É pena a comida daqui ser tão ruim. Fiquei na casa de Celinha. Elas não têm gosto em cozinhar, não. Depois vim parar aqui. Pra cozinhar, tem que ter gosto.
A gente brinca. Conversa. Fala da vida da outra. Tem de tudo. A senhora acha que vai conseguir? O olho? Me tirar daqui? Guardei. Dessa vez vai, não é? Presente, lembrança dele. Dor? Tenho que voltar para a cela. E a senhora acha que aquilo era dor? A senhora vai conseguir. Aquilo era mais uma das travessuras dele. Deus está do meu lado. Dor era o que eu sentia. Morreu ontem? Dor era o que eu sentia. Ele não está mais vivo. A vida não é mais uma desgraça. Ana Maria dos Santos Silva. Cela 9, pavilhão A. Dor?

Anjo Gabriel

Vergonha.
Muita vergonha?
Uma vergonha que nunca senti na vida.
Raiva, raiva de ter vergonha.
De qual doce você mais gosta, Gabriel? Não gosta muito de doce? Mas, nem um chocolate… Chocolate você gosta, não é? Bom garoto. Olha, o tio tem uma caixa de chocolate escondida lá no quarto. Se você achar, o tio te dá ela todinha pra você comer. […] Gabriel, já encontrou a caixa de chocolate? Ainda não? Olha se ela não está dentro do armário. Não? Então, ela deve estar por trás da escrivaninha. Já sei, ela está debaixo da cama. E aí, encontrou? Agora, sai bem devagar daí debaixo, o tio tem uma surpresa pra você. Já que você não encontrou a caixa de chocolate, o tio tem um chocolatão pra você. Chocolate branco, você gosta? Sabia que você ia querer. Isso, não olha pra trás… agora, olha! Olha que chocolate grande o tio tem pra te dar!
Por mais que me perguntasse, eu não entendia por que ele estava fazendo aquilo comigo. Meu Deus, mas logo eu? Eu sempre tão comportada. Nunca me vesti de maneira vulgar, nunca fui a um pagode com minhas amigas. Saio de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Ângelo, meu último namorado, cansou de mim. É mais fácil jogar na loteria que fazer amor com você. A minha garganta travou. Eu queria falar com ele, mas eu não conseguia. Tudo que eu queria dizer era: “Moço, por favor, não faz isso comigo”, mas eu não conseguia.
Minha namorada foi primeiro. Eu não queria ver, não. Ela virava o rosto e eu também. Eu acho que naquela hora a gente combinou que um não deveria olhar pro outro. Ele ia conhecer o nosso melhor. A gente escondia só pra gente, mas ele queria conhecer do jeito dele, então, ele fez por onde. Ele demorou muito. Eu pensei que ele iria cansar, mas não, depois dela, ele me chamou. Eu não tinha como me mexer. Ele me soltou. Mandou seguir ele e naquele momento era a única coisa que eu podia fazer.
Depois do colégio. Sim, quando a aula acabava ele tava sempre por lá. As meninas ficavam comentando. Quem é aquele gatão? Tinha um carrão, não sei o nome, não. Não entendo de carros. As meninas diziam que ele era um mauricinho que morava lá perto. Sei que agora ele sumiu e ninguém mais vê ele. Ele tava sempre com um cigarro aceso. Às vezes, o cheiro era estranho. O porteiro dizia que era maconha. Mas como polícia não chega nas bandas de cá! Ele parava, ligava o som nas alturas. Tirava a camisa. Um corpo todo malhado, tatuado. A gente ficava doida. Aí, um dia, ele me chamou pra chupar um sorvete. Eu disse que eu ia. Eu adoro chupar sorvete.
Isso, Gabriel, tá vendo? O chocolate do tio nem é tão doce. Você disse que não gosta muito de doce. Faz assim, primeiro você coloca uma parte, e depois engole todo. Isso, bom garoto. Olha como seu tio está feliz! Um bom menino faz a felicidade dos outros. Não, põe na boca de novo. Gabriel, me obedeça. Se você não colocar o chocolate do tio na boca, eu conto tudo para a sua mãe. Vou dizer que você é um menino malcriado e não obedece aos mais velhos. Olha, se você chupar o chocolate do tio, você vai ter uma surpresa. Tá vendo? É gostoso!
Sei quem era ele, não. Eu larguei o serviço às 22, como sempre. Mas tava tudo bem movimentado. Tem muita gente que sai esse horário também. Quando eu botei o pé na
passarela, ele apareceu. Pegou na minha mão e fez sinal para eu calar a boca. Não disse nada. Botei a outra mão no meu bolso, onde sempre deixo o terço e comecei a rezar. Não tinha noção do que estava acontecendo, mas não consegui reagir. E nessa hora não tinha ninguém por perto para eu falar qualquer coisa. De quando eu cheguei até a gente atravessar a passarela toda, não apareceu nenhuma alma. Eu gelei. Tremi de medo. Mas sabia que Deus era por mim.
Aí, eu falei com ele. Você não está satisfeito, não? Aí, ele mostrou o prateado: se eu falasse alguma coisa, não tava aqui. Nem eu, nem meu corpo, nem minha garganta, nem minha voz. Mas o pior foi que ele veio logo na garganta. Engulhei. Tive ânsia de vômito, travei a boca. Ele mandou eu abrir de novo. Abri, procurei relaxar e chamei pelo meu anjo da guarda. Meu anjo da guarda nunca falha. Não demorou nem um minuto, ele parou. Mandou eu deitar na areia. E, sinceramente, falar sobre isso só me traz vergonha. Vergonha, muita vergonha.
Eu só estranhei porque tinha uma sorveteria uns 200 metros da escola. Aí, o carro passou, ele seguiu direto. A gente não ia tomar um sorvete? Mas lá em casa tem uma máquina de sorvete, gatinha, relaxa. Fiquei na minha. Pedi para mexer nos CDs dele. Coloquei Djavan. Você curte Djavan? Meu pai gosta muito. Chegamos ao condomínio dele. Coisa de novela. Porteiro. Garagem automática. O prédio era imenso. E, pra piorar, cada apartamento tinha dois andares. O cara era muito rico! A casa, toda linda. Cheia de quadros, cristais, móveis caríssimos. Você quer beber alguma coisa? Mas não seria o sorvete? Tudo bem. Qual sabor? Gosto de manga, tem? Vou pegar. Fui na varanda. De lá dava pra ver a casa da minha tia. A favela dela era perto. Nossa, aquela era a vida que eu queria ter. Morar em um apartamento como aquele devia ser divino. É uma pena que para isso tenha que se pagar um preço tão alto.
Sabe o que é isso, Gabriel? Leite condensado. Lembra que o tio falou que se você chupasse o sorvete dele, tinha uma surpresa depois? Você gosta de leite condensado? Não é muito doce. Do jeito que você gosta. Você falou para o tio que não gostava muito de doce. Isso. Pode lamber. Agora, bebe tudinho. Bom garoto! Agora, o tio vai
te dar outro presente. Gosta de sentir cócegas? O tio vai fazer cosquinhas em um lugar que você nunca sentiu. Qual lugar? O tio não vai falar, é surpresa. Não, mas não é pra você ver. É surpresa. Aqui. Tá sentindo cosquinhas? Olha como é gostoso, Gabriel. Não, não está doendo. Calma. O Tio vai fazer de novo. Isso é outro tipo de cosquinha. Por isso que você está estranhando. Deixa o tio fazer cosquinha em você? Não seja malcriado. Calma, não dói, não. É impressão sua. Isso é gostoso. Daqui a pouco acaba.
Ele viu que não tinha mais jeito de me levar pra longe. Paramos numa rua sem saída. Não tem comércio lá. Só prédio residencial. No final da rua tinha dois carros parados. Ali mesmo, no meio dos dois carros, ele começou a besteira. Mandou eu colocar a bolsa no chão. Disse para eu virar de costas. Encostou a faca na minha goela e mandou eu levantar a saia. Baixou minha calcinha e começou a fazer a bobagem. Se você gritar, eu te mato! A faca no pescoço, eu ia fazer o quê? Eu senti muita dor. Eu pari o meu primeiro filho de parto normal. Era pior. Não conseguia chorar. A raiva que eu tinha era tão grande que eu tava toda dura. Toda seca. Está tudo ferido aqui. Eu me mijei. Minhas pernas ficaram molhadas. Demorou muito, mas ele não tirava a faca daqui. E não aparecia ninguém. Não era possível que ninguém pudesse estar vendo aquilo. Que desespero! Depois de muito tempo, ele parou. A faca caiu no chão. Ele pegou. Não tinha jeito de fugir.
Enterrou minha cara na areia. Eu só queria saber como ela estava. Ela está dormindo, cala a boca. Doía muito. Cada vez que ele se jogava por cima de mim eu comia areia. Comi muita areia. Se eu quisesse respirar, se eu quisesse gritar, ele sentia. E enterrava cada vez mais o rosto na duna. Meu olho encheu de areia. No outro eu conseguia ver a lagoa. As luzes das casas. E não tinha ninguém. Ninguém que eu pudesse pedir ajuda. Pelo amor de Deus, me ajuda! Um prateado. Na minha boca, o prateado. A mão dele ali, podendo me mandar para Goiás quando
ele quisesse. Ele viu que eu estava tentando me mexer. Amarrou as minhas mãos. Botou o prateado na altura dos meus olhos. Ali ele foi feliz umas duas vezes. Depois eu desmaiei. Não lembro mais. Acordei no final. Ele colocou a minha namorada do meu lado. Ela tava meio amuada, não falava nada. Pegou a camisa, rasgou em dois. Amarrou a minha boca e a dela.
Não é de manga, não. É sim! Era uma coisa assim tipo coco. Que calor é esse? Vou tirar a roupa. Em questão de segundos ele já estava todo nu. Eu queria tanto ver aquele corpo. Bonito. Os músculos todos no lugar. Tinha uma tatuagem na beira da cintura. Foi mamãe quem fez! Mas aquela não era a hora de ver aquele corpo. Qual foi? Não quer, não? Tá brincando comigo? Eu sei que você quer. Ele me levou para a varanda. Ainda era dia. Me mandou calar a boca. Aqui ninguém te ouve, nem adianta. Tirou minha farda e me mandou deitar no chão e começou. Eu queria tanto gritar. Mas, se ali ninguém ia me ouvir? Quando ele me virava, eu via a casa da minha tia. Queria pedir pra que ela me tirasse dali. Ela fez isso quando a filha da vizinha me bateu. Quando meu primo me levou pra jogar gude me apostando com os amigos dele. Eu era a única menina. Eu queria ver o corpo dele, mas ele não deixava. Talvez, assim fosse melhor. E ele não deixou. Eu não tinha como reagir. Tá gostando, né? Ele fez tantas vezes que eu nem sei como terminou.
O tio vai te vestir. Gabriel, vamos brincar? É um jogo novo que o tio vai te ensinar. Segredo. O que acontecer entre você e o tio você não conta nada. Pra ninguém, entendeu? Quem contar perde.
Se você contar a alguém, eu te mato.

Fórceps

Tempos antes de eu nascer, a mãe da mãe da minha mãe dizia. O pai do pai do meu pai dizia. O pai da mãe da minha mãe dizia. A mãe do pai do meu pai dizia. A mãe da minha mãe dizia. O pai do meu pai dizia. O pai da minha mãe dizia. A mãe do meu pai dizia. A minha mãe dizia. O meu pai dizia. Um homem que faz essas coisas, não é um homem de verdade. Antes mesmo de a cidade ser chamada Irecê, nunca se ouviu falar de nenhum homem assim nos ramos da família Bernardes. Quando acontecia em outras famílias, corria à boca pequena e logo tratavam de pôr fim ao assunto. Matavam o homem. Quando criança, quando adolescente e agora adulto, as histórias continuam vivas. Os homens perdiam a dignidade, a família, o nome, a herança, a vida por serem assim.
A coisa ultrapassava o fazer e ganhava o ser. E ser era tão insuportável como qualquer verdade absoluta. Os próprios homens da família tomavam a frente da situação e apagavam do mapa aquela barata podre que trazia mofo às fotografias dos antigos. Sempre em poses bem comportadas. Nos corpos, nas faces, não havia o menor indício de um homem assim. Mulheres? Sempre seguiram à risca os mandamentos da submissão. A família mantinha-se forte. E todo o homem que havia em mim desmoronava. Eu não podia ser assim. Nunca aceitava. Nunca aceitei. Não aceito. Preciso ser homem para vencer na vida. Trago uma história de quase duzentos anos. Glórias de desbravadores que descobriram no nada a riqueza que até hoje nos mantém. Somos ricos. As tristezas
não fazem parte das nossas declarações de Imposto de Renda. Aquele que padece guarda para si suas dificuldades. Hoje, pela manhã, uma das minhas filhas me chamou de Pai. Luciano é o nome e apelido pelo qual sou tratado em casa. Um homem de verdade se reproduz…
Viver com isso nunca foi fácil. Eu tenho certeza que nasci assim. Não foi a vida que me trouxe essa espécie de síndrome. Ninguém pede para nascer doente. Torna-se marginal por escolha? Ou todo crime tem um fator social? No meu caso, escolha não pertencia à única linha do meu menu. Como encarar a vida sem saber fazer de outra forma? Forçando-me. Poderia ser esquecido. Poderia ser morto. Tornei-me um homem de verdade. Reproduzi cinco vezes. Expandi o negócio da família. Nunca me curei. Os dias eram insuportáveis. Calafrios me visitavam em noites de calor. E só mesmo a minha mão direita me ajudava quando necessário. Cansei-me do seu gosto, e não pude mais visitá-la. Isso não é coisa de Deus. Deus protege meus filhos, minha família. Não sou do meu Deus. Sou um fruto do sétimo dia. O dia em que Deus descansou. Sou a fruta maldita que cai do pé antes de saber se nasceu para amadurecer ou viver dura, azeda, insuportável para qualquer língua que ousar prová-la. Não há dinheiro. Não há filhos. Não há mulher que me faça inteiro. Não sou um homem completo. Um homem assim não pode ser um homem de verdade.
Um vírus perpétuo. A doença toma conta de mim, mesmo após anos sem se manifestar. Ficou mais complicado após o caçula atingir a maioridade. Foi aos dezoito que me descobri doente. Estudante, na capital, na residência universitária. Um amigo tornou-se inimigo ao me dizer que eu não era doente. Ele era igual a mim, como eu, e não se considerava um doente. Mas ele… ele não é um homem de verdade. E ainda hoje ele demonstra indignação quando relato que a minha doença evoluiu. Esteve adormecida, mas nunca morta. Ele é um doente perene. Eu? Tento me curar. Mas não é possível. Deus esquece os filhos do sétimo dia. Aqueles que adotam as excursões noturnas como hábito. Fogem de casa, enquanto a família adormece. Gastam gasolina à toa. Demoram a eleger uma ação. E quando agem, tornam-se doentes. Visitam ruas inóspitas. Esquecem seu nome, seu patrimônio material, sua própria vida. Tornam-se imóveis vagabundos de aluguel. Ali, qualquer um pode morar.
Rubem, o estagiário, era um morador discreto. Os vizinhos não percebiam os seus movimentos. Suas chegadas, suas saídas. A sua pesquisa de campo era paga com bônus extras em seu salário. Era um homem de verdade. Entendia que aquele apartamento era um hospital onde morava um doente. Gabriel, o antropólogo, pesquisava anatomia. Sabia como lidar com todos os corpos. Presentes e ausentes. Naquele apartamento, faltavam músculos e órgãos para a sua especialidade. Mudou-se. Em outro lugar, não lhe faltariam carnes, músculos e órgãos para explorar. Joelma, técnica em enfermagem, mais parecia uma médica. Sabia que aquele apartamento não era um hospital, mas um simples aconchego de alguém que carece de cuidados. Falava manso, baixo. Medicava ansiolíticos ao paciente emoldurado. Ainda que a doença não tivesse cura, havia drogas para resolver tamanho desalento de uma vida forjada. Leila foi a mais intensa de todos os moradores. Escolheu a dedo o seu novo apartamento. Ali ela satisfazia a sua fome. Nunca faltava gás no fogão. E quando faltava carne no mercado, achava-se pele fértil em seu próprio corpo. O paciente não estava mais doente, mas precisava de um antiácido para curar a sua azia, um analgésico para a cabeça pulsante, um antibiótico em dias em que a síndrome fazia o corpo tremer em febre. Afinal de contas, aquilo era um simples apartamento, não um posto de saúde. Toda mãe sabe como medicar um filho, ainda que por mão de terceiros. Até hoje ela reside lá. Ela sabe que qualquer dor crônica pode ser tratada com fantasias. Reinvenções da realidade dura, azeda e insuportável.
Leila tem a letra do nome da mãe da mãe da minha mãe, Lindalva. Do pai do pai do meu pai, Lourenço. Do pai da mãe da minha mãe, Laurentino. Da mãe do pai do meu pai, Leocrécia. Da mãe da minha mãe, Lourdes. Do pai do meu pai, Luiz. Do pai da minha mãe, Lucas. Da mãe do meu pai, Laura. Da minha mãe, Letícia. Do meu pai Leonardo. Mesmo doente, Leila me trouxe o paliativo. A sua medicina é segura e homeopática. Em pequenas doses, descubro que um homem de verdade deita com mulheres, ainda que sejam homens.

Publicações

  • Participação na Antologia de Contos e Poesias – Concurso Literário do Servidor Público Estadual ano II, 2015 – Conto/ Poesia;
  • Furúnculos, 2015 – Contos;
  • Participação na Antologia de Contos e Poesias – Concurso Literário do Servidor Público Estadual ano I , 2014 – Conto/Poesia.

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